Depois dos sonoras críticas em alguns comentários no meu artigo anterior , como o da
Anita, da
Ane, da
Paola, e outros, decidi ouvir gente como a
Júlia, que diz para eu primeiro “escrever uma série que venda mais de 25 milhões de cópias, seja traduzida para 37 idiomas e ainda vire um filme” antes de ter o divino direito de dar uma opinião sobre quem eu quiser, especialmente sobre “a minha idolatrada Stephenie Meyer”.
Sabe de uma coisa? Estão todos certos. Que direito tenho
Eu de não gostar de um livro publicado? Como é possível alguém dar a opinião sobre um livro sem antes vender 1,3 milhões de volumes em um único dia?
E quanto aqueles que concordaram comigo? É um absurdo que eles não gostem dos livros sem que seus trabalhos (se é que existem) tenham originado milhares de fãs-sites, não é?
Eu decidi que para conquistar esse direito eu deveria fazer sucesso e também ajudar aqueles que precisam fazer sucesso — única forma de conquistar o direito de liberdade de expressão — antes de se aventurarem pela crítica literária. Então aí está:
1. Abuse do Tesauro: O uso correto das palavras é opcional, purple prose é o máximo
Para você que deseja “incrementar” sua escrita para que soe como a de Meyer, um tesauro é algo que vem a calhar. Só assim você poderá escrever passagens gloriosas e deslumbrantes (ou gloriosamente deslumbrantes, você escolhe) como essa:
He lay perfectly still in the grass, his shirt open over his sculpted, incandescent chest, his scintillating arms bare. His glistening, pale lavender lids were shut, though of course he didn’t sleep. A perfect statue, carved in some unknown stone, smooth like marble, glittering like crystal.
Se você não usar pelo menos três modificadores* para cada nome, você está fazendo errado. Alguns autores como George Orwell (1984, A Revolução dos Bichos) usam regras como “nunca use uma palavra longa onde uma curta fará o mesmo trabalho” e “se for possível cortar uma palavra, corte-a”. Mas já que Stephenie Meyer parece ser o padrão de ouro da literatura jovem de hoje em dia, é provavelmente melhor ignorar Orwell e seguir seu exemplo.
Você ganha um bônus se usar os mesmos modificadores múltiplas vezes, próximos de um outro. Bons exemplos de palavras para usar são''mortificado'', ''murmurado'' e ''aterrorizado''. Veja que lindo (não esqueça de mudar o nome das personagens):
“Bella ficou mortificadamente aterrorizada com as palavras murmuradas pelo sombrio Edward.”
2. Não pesquise
É desnecessário perder tempo coletando detalhes biológicos, legados culturais, ou mesmo histórias culturais corretas. Por exemplo, se você escolher retratar em seu romance um lugar que exista na vida real, não se aborreça visitando-o. Se você incorporar ideias de outra cultura, como os Sioux, você absolutamente não precisa falar com qualquer pessoa desse povo.
Como autor(a), você não tem qualquer responsabilidade de representar nada de forma acurada. Ao invés dessas besteiras, pegue qualquer história que você encontra na internet e sinta-se à vontade para deformar e degradar qualquer erudição cultural para encaixá-la em seu enredo. Além disso, se você decidir usar a ciência para explicar alguns dos seus elementos de fantasia, não se aborreça tornando as explicações lógicas ou factuais.
3. Não dê personalidade a suas personagens
Ao invés disso, tenha certeza de que a heroína é “perfeita o suficiente” (mas não se esqueça de lhe dar um sentimento artificial de humildade). Evidentemente ela deve ser bonita (ou bela) e inteligente, mas não se incomode em dar exemplos dessa inteligência; tudo que você precisa fazer para suprir essa função é mencionar más interpretações da literatura clássica.
Para o leitor ter certeza de que ela é tão perfeita, ela precisa de um defeito. Aqui as coisas começam a ficar complicadas: se você a der um verdadeiro defeito, como a arrogância, ela se tornará menos atraente. Por isso, use defeitos no sentido de “ter pouco jeito para…”, algo como a) ser caridosa de uma forma doentia, e permitir que jovens socialmente rejeitados usem seus próprios sapatos; b) ter uma espécie de deus que permite que seu amado a salve em uma queda de precipício ou de ser empalada por um lápis depois de uma tentativa frustrada de magia negra.
Às vezes também é interessante dar a sua heroína uma espécie de complexo de Electra, romantizando a ideia do seu amado a carregando, espionando-a enquanto dorme, sendo 100 anos mais velho que ela, etc.
Também é importante destacar que a heroína não deve sacrificar nada para além de sua ambição. Se você achar que ela deve sacrificar algo, tenha certeza de que ela está apenas desistindo da família e dos amigos para devotar toda sua vida ao amor. Ela NÃO deve ter qualquer tipo de hobbie, interesse, etc. que não esteja relacionado com o herói. Ah, e se ele decidir deixá-la, ela deve tornar-se suicida.
E já que estamos falando no mocinho…
É de necessidade extrema que ele seja um perfeito macho da espécie (fisicamente, claro). Tome cuidado para não lhe dar qualquer característica de alguém real, já que isso vai reduzir a habilidade do leitor em sobrepor sua imagem de “homem perfeito” sobre a concha vazia de seu personagem. Quanto às características pessoais, é extremamente efetivo descrevê-lo como uma perfeita caricatura do herói byroniano.
Seu herói deve ser taciturno, pseudo-perigoso, e ter um segredo profundo e tenebroso para passar aquela imagem de “bad boy sexy”. Além disso, ele deve ser extremamente rico, dirigir carros esportivos e adorar espionar a heroína enquanto dorme, sem preveni-la.
4. Dê a entender que o relacionamento entre herói e heroína é abusivo
Um dos métodos efetivos de fazer isso é ter certeza de que seu herói preenche vários dos requerimentos dos relacionamentos baseados em abuso. Uma boa explicação da Nation Master (tradução livre):
Relacionamentos abusivos são frequentemente caracterizados por ciúmes, retenção emocional, falta de intimidade, infidelidade, coerção sexual, abuso verbal, promessas não cumpridas, violência física e jogos de controle e poder.
(Para os mais inteligentes : Abusive relationships are often characterized by jealousy, emotional withholding, lack of intimacy, infidelity, sexual coercion, verbal abuse, broken promises, physical violence, control games and power plays. )
Pessoalmente, eu recomendo o uso de: ciúme doentio, falta de intimidade, coerção sexual, promessas não cumpridas e comportamento controlador, já que esses são os mais fáceis de justificar; o herói deve afirmar que ele fica fora de si para proteger a heroína do perigo, devido a seu enorme amor por ela.
Além disso, se existir algum outro personagem que cause interesse na heroína, o herói deve isolá-la, evitando o contato entre os dois. Esse é o método mais eficaz de garantir o amor da amada. Ótimos exemplos são: retirar o motor ou furar o tanque de gasolina do carro.
É especialmente importante notar que a heroína não deve ver defeitos nessas ações abusivas do seu herói, coisa que o tornaria muito menos atraente. Ao invés disso, ela deve perdoá-lo por seu comportamento dizendo “ele apenas me ama” e continuar se submetendo às vontades dele.
Caso você estiver preocupado(a), pensando que tudo isso possa enviar uma mensagem ruim para jovens em processo de desenvolvimento da própria identidade e passando por problemas em seus próprios relacionamentos “romanticidas”, relaxe.
Como disse a Aline “nós, garotas adolescentes confusas, não somos burras, eu mesma tenho 13 anos e já li Crépusculo e Lua Nova na boa e não pirei com os acontecimentos”, a Anita “Bella se jogando de um precipício ou começando a dirigir motos para ouvir a voz de Edward não nos convencerá a fazer o mesmo, e muito menos é o que a autora está estimulando! Além do mais, essa é uma história que não representa a vida real, e já li histórias muito mais absurdas que essa…”, a Hannah “Tenho 13 anos e sou feliz com as minha opiniões! Não me mataria pela série”, a Ane “nós não vamos pular de penhascos, ou dirigir motos só pq isso acontece no livro. Assim como muitos fas de Harry Potter não tentaram voar de uma vasoura só pq ele voa”.
Ninguém nunca foi influenciado por livros na história da humanidade, nem mesmo se nos voltarmos para Os Sofrimentos do jovem Werther, de Goethe ou A Cabana do pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe.
Da mesma forma, pessoas não são influenciadas pela mídia ou por pressões sociais. Ler romances não influencia ninguém de forma nenhuma.
5. Não deve haver enredo
Talvez você até pense que ação ascendente, clímax, ação decadente, desenvolvimento das personagens e outras ladainhas sejam importantes para um romance. Não são. Ao invés disso, foque-se na perfeição do herói. Caso seu editor forçá-lo a escrever um enredo, use isso como uma nova oportunidade para o herói salvar a heroína.
6. Dinheiro na conta!
Está feito! Eu espero que isso ajude todos vocês a escreverem sua própria série Twilight. E para aqueles que não gostaram muito da minha capacidade crítica, eu prometo seguir os passos acima antes de sequer pensar em publicar algo contra um livro no futuro.
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